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A Primeira Ligação


O Tom vira e mexe pede pra ligar para a vovó via chamada de vídeo pelo WhatsApp. Quando isso acontece, ou quando já estamos numa ligação assim, muitas vezes ele pega o celular e sai andando. Obviamente quem está do outro lado fica um tanto quanto tonto porque ele não para quieto.

Ele também não costuma ficar falando, mas se pedimos pra mostrar o Gael ou mandar um beijo, ele aponta o celular direitinho e faz o que pedimos.

Hoje foi um pouco diferente. Estava no trabalho e chega uma ligação de vídeo da Mamãe. O horário não era usual, mas provavelmente deveria estar acontecendo algo fora do normal que ela queria mostrar, então atendi. Quem apareceu foi o Tom, e deu um grito quando me viu! De felicidade, claro!

Achei que ele tinha pedido pra ligar pra mim, só que depois de alguns segundos, em que ele ficou andando pelo apartamento com o celular, a Mamãe apareceu dizendo “você ligou pro papai? Você que ligou?“!

Ele pegou o celular e fez uma chamada de vídeo pra mim pelo WhatsApp! Não sei se era essa a intenção dele, se era pra falar comigo mesmo, mas uma coisa é certa: a alegria dele ao me ver foi contagiante! E a felicidade de ter recebido uma ligação do meu filho não tem preço!!


E o segundo apelido é…


O Tom nasceu já com um apelido bem consolidado: Biscoito. Inclusive era assim que me referia a ele aqui no blog. Claro que ele ganhou diversos outros conforme ia crescendo, aprontando, se desenvolvendo. Um que eu uso muito é vaca-louca. Quando ele se empolga com algo, sai da frente ou de perto porque corre o sério risco de acabar com um hematoma.

Ontem quando fomos buscá-lo na escolinha (é….ele está indo pra escolinha, mas isso é assunto para outro texto), a Mamãe ficou no carro com o Gael, já que estava chovendo um pouco, e eu entrei para pegá-lo. Cheguei na porta da sala e havia uma rodinha com as crianças, algumas já com um pandeiro na mão sentadas cantando e outras indo pegar o instrumento…o Tom entre estas. Não falei nada para ver o que ele faria. Pegou o pandeiro, mas aí a tia falou pra ele “olha quem tá na porta“, e acabei chamando também. Ele veio todo sorridente me pagar e tentou me puxar pra dentro da sala, mas como estávamos com pressa, não entrei.

Aí a tia chamou outra tia para colocar a sandália nele, e ouvi lá de dentro oooooutra tia (é, uma terceira) dizer “tchau, cheiroso“! E na sequência duas amiguinhas que estavam na sala também dizem “tchau, cheiroso“!!

E assim ele ganhou o primeiro apelido na escolinha! Para encher de orgulho a Mamãe que sempre passa um perfuminho nele!


Dia 329 – A Primeira Peça


Papai e Mamãe sempre fecham a porta do banheiro quando estou no chão. Acho uma tremenda sacanagem! Tem tanta coisa legal lá….tem um lugar que se empurrar um troço transparente, ele dobra e às vezes cai água do teto! E tem um monte de coisas grudadas nas paredes, que parecem desenhos.

E aquele negócio branco que parece um troninho e tem tampa? Eu quero ver o que tem dentro mas ninguém deixa! Sempre tiram minha mão quando vou levantar a tampa ou Papai coloca o joelho pra impedir, enquanto ele está enchendo a banheira pro meu banho!

Eles também fecham a porta do quarto deles. Eu adoro lá dentro! Quase sempre tem algum sapato no chão pra eu sentir o sabor! Também tem um tapete tão gostoso, que adoro ficar sentado nele enquanto puxo aqueles fios pra tentar fazer a TV descer e ficar mais fácil pra ligar e desligar. Sem contar aquela caixa grande atrás do armário, de onde o Papai tirou uma vez um negócio esquisito com um monte de cordas que ele fez sair som…..gostei tanto!! Pena que ele não faz isso muitas vezes….

Pelo menos meu quarto sempre fica aberto! Também, lá estão todos meus brinquedos! Eles iam ver só se o deixassem fechado! Hoje eu descobri um lugar muito legal, novo, e não sei porque a Mamãe ficou tão brava ao me ver ali! Ela sempre tenta me colocar lá em cima para dormir, mesmo eu já tendo falado pra eles várias vezes que prefiro dormir com eles. Entrei embaixo do berço e descobri várias caixas fechadas, que não consegui abrir! Será que são brinquedos que eles estão guardando pra mim? Se eu pedir com jeitinho será que eles me dão agora?

Quando o Papai chegou, eu entendi o porque da Mamãe ter ficado brava quando fiquei embaixo do berço…hihihi! Eu estava brincando enquanto ela cuidava da casa, e quando ela foi me procurar não me encontrou! Buscou em todo lugar, e eu fiquei quietinho pra ela não perceber onde eu estava pois ela ia querer me tirar de lá, tenho certeza!! E lá é tão gostoso, fresquinho, escurinho! Só que aí acabei fazendo barulho e ela percebeu…mas não brigou comigo não! Acabou achando engraçado, só não sei por que…


Recado para a Mamãe


O Biscoito pediu para eu escrever, já que ele ainda não tem idade para usar o computador!

Mamãe, este pode não ser o primeiro dia das mães que passamos juntos, pois eu já podia estar na sua barriga no ano passado, mas é o primeiro dia das mães em que posso olhar para você, sentir você, sorrir para você!

Eu sei que às vezes eu choro muito e você fica sem saber o que fazer, pois você ainda não consegue entender totalmente o que te digo, mas todas as vezes em que isso acontece eu acabo me acalmando quando você me pega no colo, me esquenta com seu amor.

Você sonhou muito comigo e eu acho que eu estou conseguindo ser um bom filho e superando suas expectativas. Saiba que você não é um mãe qualquer, você é a minha mãe, você é a mãe que cuida de mim, a mãe que me ama, a mãe que me alimenta, a mãe que (às vezes) me entende. É você que acorda às 3 da manhã para me alimentar, é você que escolhe minha roupa, me penteia, me deixa limpinho e cheiroso. É com você que eu fico deitado na cama.

São seus carinhos e suas brincadeiras que me fazem sorrir e ter certeza que vim ao mundo no lugar certo, para as pessoas certas, no momento certo. É você que faz a minha vida valer a pena!

Obrigado por ser minha mãe!

Te amo!!!


Dia 80 – Quem é esse bebê?


A Mamãe passa o dia inteiro com o Biscoito, enquanto eu morro de inveja no trabalho! Então ela brinca com ele, conversa, interage. E ontem aconteceram duas coisas sensacionais, mostrando o desenvolvimento dele.

Ela me contou que estava com ele na cama à tarde, descansando. Ele estava prestando atenção nela (ou simplesmente virando a cabeça pra lá e pra cá), e a TV estava ligada. Quando começou o jogo de futebol que a RGT transmitiu ele imediatamente virou a cabeça para a TV e ficou olhando! Será que temos um filho esportista? Ou é como o pai: só gosta de ver? É, porque eu sou uma negação em qualquer esporte que envolva uma bola. Exceto taco. Jogando taco eu era bom!

Agora preciso verificar se ele gosta apenas de futebol ou se é de esportes em geral. Não vejo a hora da temporada da NFL começar para assistir jogos com ele!!!

E o segundo acontecimento, esse mais especial ainda: ele se reconheceu! Muitas vezes quando estou com ele no colo o deixo de costas pra mim, assim ele consegue ver todo o ambiente, e fico parado em frente ao espelho da sala, perguntando quem é esse bebê. Às vezes noto que há contato visual, olho no olho, dele com ele mesmo. Mas nunca houve nenhuma reação mais específica…depois de poucos segundos ele volta a mexer a cabeça e olhar em volta. E sim, faço isso ficando bem perto do espelho, já que a capacidade visual dele ainda não está 100%.

Mas nesta quinta a Mamãe estava filmando ele com o celular, usando a câmera frontal, portanto a tela estava virada para ele, e quando ela perguntou quem é esse bebê, ele estava olhando para a tela e sorriu! Mais à noite, quando eu já estava em casa, ela mostrou a filmagem para ele, e novamente ele sorriu!

Ou efetivamente se reconheceu, ou sinto que teremos problemas com uma criança que não largará o celular! Prefiro acreditar na primeira opção! 🙂


Dia 59 – Presente de Grego


Na quinta-feira o Biscoito completou 2 meses. É, eu sei! Não são 60 dias. Quem mandou nascer em fevereiro?

E foi o dia escolhido para dar as temidas vacinas. Escolhemos esse dia pois foi véspera de feriado prolongado, então posso ficar 100% do tempo com o Biscoito e com a Mamãe.

O Dr. Atra foi enfático: pode dar todas as vacinas no posto de saúde, exceto a pneumocócica, que protege contra pneumonia e meningite. Essa ele recomendou fortemente a dar em clínica particular, pois a da clínica protege contra uma quantidade maior de variações da bactéria.

Haveria outras duas vantagens em dar todas as vacinas na clínica: uma picada a menos (no posto são 3 e na clínica 2) e reação às vacinas (na clínica quase não há reação). Os problemas são o custo (apenas a pneumocócica custa em média R$ 300,00) e a falta de uma das vacinas! Ela está em falta quase que no mundo inteiro, segundo a pediatra da clínica (apenas em alguns lugares dos Estados Unidos e da França pode ser encontrada, segundo ela).

Então não tivemos muitas opções e fomos dar as vacinas no posto, exceto a pneumocócica.

Infelizmente, de novo, não pude estar junto à Mamãe e ao Biscoito na aplicação da vacina. Quando nos chamaram a moça disse que precisava da carteirinha do SUS do Biscoito. Então fui tirar a senha para o atendimento para fazê-la. E na hora que chamaram meu número foi a hora que começaram a dar as vacinas. Quase desisti de ir e pegar outra senha depois. O problema é que tínhamos que sair correndo do posto pra clínica dar a vacina que faltava, pois ela precisava ser dada no mesmo dia, ou então só no mês que vem!

Do balcão ouvia o choro do Biscoito, e a vac….atendente não me deixou ir até a sala de vacinação dizendo que precisava de algumas informações, as quais poderia ter perguntado depois ou esperado um pouco.

Voltei à sala e o Biscoito estava no colo da Mamãe, choroso, e a Mamãe com cara de assustada. Mas ela aguentou forte!

Na clínica chegamos um pouco antes de um casal com uma menina, que foram tomar a vacina contra a gripe. Mamãe falou para eles passarem à frente para a criança não se assustar com o choro do Biscoito ao tomar a vacina. Essa é a Mamãe! Mesmo com o coração apertado pelo sofrimento do Biscoito ainda pensa nos outros!

A noite foi longa. Houve um bolinho para comemorar os 2 meses do Biscoito feito pela Mamãe, delicioso! Mas o Biscoito ficou muito choroso, e só dormiu conosco, na nossa cama. Claro que ele ficou com metade da cama e a Mamãe e eu espremidos na outra metade.

Está febril, mas pelo menos sem muita dor na perna, aparentemente. Essa reação era esperada.

Dentro de um mês nova vacinação.


Crônica do Nascimento


Recebo tio, tia, avó, primo, sobrinho. Corredor cheio. Barulho dentro e fora do quarto. Pobres famílias que estão nos outros apartamentos tentando dormir. Daqui a pouco aparece um segurança mandando todo mundo entrar no quarto, penso.

Onde coloca essa mala? E essa caixa? Cabe no armário? Cadê a Mamãe que não subiu ainda?

Santa ajuda da prima para organizar as coisas no quarto.

Vou até a enfermagem perguntar se vai demorar muito pra Mamãe subir. Está marcado para as 20:00. Já são 19:40. A enfermeira olha o relógio e diz:

– Ainda tem tempo. Vai subir sim.

Volto pro quarto. Metade da família dentro conversando, metade fora, no corredor, conversando.

Toca o telefone.

– Acompanhante da Sra. Mamãe?

– Sim, sou eu!

– O senhor deve descer na triagem com um documento seu, a autorização para entrar no centro cirúrgico e a primeira muda de roupa do bebê.

O coração dispara, e ela continua:

– A sua esposa já trocou de roupa e o senhor deve pegar as roupas que ela estava vestindo. Ela já vai subir para o centro cirúrgico.

O coração já saiu correndo do hospital.

Falo pra todo mundo que ela vai direto pro centro cirúrgico, então todos devem subir ao 5o. andar para assistir o parto. Eu vou descer pegar as roupas dela. O que é que eu tinha que levar mesmo?

Encontro Mamãe sentada, com cara assustada, já trocada para a cirurgia. Provavelmente ela deve ter visto minha cara de pânico também!

Acompanhei ela até o 4o. andar, onde eu desceria para deixar as coisas dela no quarto e me trocar. Ela seguiu pro 5o., onde cruzou com toda a família no corredor. Abraços de mãe, avô, afilhada. Aplausos. E choro! Muito choro! Depois vi pelas fotos e soube pelos relatos que foi emocionante. Mas não pude estar com ela, segurando sua mão.

Entrei na área reservada, onde médicos, enfermeiros, assistentes e acompanhantes se trocam. Tiram toda a sua roupa e colocam a do hospital. Uma calça e uma blusa. E protetores no sapato. O sapato fica. Talvez para evitar mal cheiro, quem sabe. E uma touca. Meu documento é trocado por uma chave de armário. A guardiã das chaves diz que muita gente saía do centro cirúrgico e esquecia de deixá-la de volta, indo embora com ela.

Sento no banco aguardando ser chamado. Tem um outro pai ao lado. Como homens, trocamos meia dúzia de palavras. Imagino que se fossem duas mulheres teriam saído dali com zapzap uma da outra e já teriam combinado de tomar um café depois do nascimento. Talvez tenham se passado 10 minutos. Ou 20. Ou 30. Não sei.

A enfermeira entrega uma máscara e ensina a colocar. Amarra no pescoço e deixa a parte de cima solta. Na hora de entrar na sala de cirurgia amarra atrás da orelha. É que essa máscara esquenta ao se respirar.

Mais 10 minutos. 20. 30. Uma hora?

Toca o telefone da enfermeira.

– Acompanhante de Joana (nome fictício, imagina se vou lembrar o nome da outra mãe). Pode subir, sala 4 – diz a enfermeira.

– Boa sorte e bom nascimento – digo para o pai.

– Obrigado, bom nascimento para você também – responde ele.

Nenhum de nós dois sabia que o termo correto para esse momento é “boa hora“. Assim como para um ator que vai entrar em cena é “quebre a perna”. Por que “boa hora” é uma boa pergunta! Mas com certeza melhor que “quebre a perna”.

10 minutos. 20. 30. Três horas?

Chega para se trocar uma moça que vai acompanhar um parto. Ela estava branca. Penso que deve ter sido pega de surpresa. Se tivesse 20 anos era muito. Sinto um pouco de pena pelo pai da criança não estar lá. Mas talvez não estar lá seja algo bom. Vai saber.

A enfermeira ensina o ritual da máscara para ela.

10 minutos. 20. Uma eternidade!

Toca o telefone.

– Acompanhante de Mamãe, pode subir. Sala 5.

Sinto uma descarga de adrenalina. Batimentos a 300. Nossa, o coração voltou! Que bom!

Na mão está a troca do Biscoito e a autorização para entrar no centro cirúrgico. Tento colocar a máscara com uma mão só. Deve realmente ser a adrenalina. Óbvio que não consigo. Chego no andar e entrego a autorização. Paro na porta da sala de cirurgia, coloco a troca no meio das pernas e uso as duas mãos para colocar a máscara.

Devo esperar alguém abrir a porta ou já entro? Vou entrar. No pior dos casos me mandam sair e esperar.

Entrego a troca de roupas para uma médica…enfermeira….assistente….pediatra….sei lá, para alguém! E me dizem para sentar num banquinho na cabeceira da maca, ao lado da Mamãe. Dou a volta na maca e nem vejo o que os médicos estão fazendo. Quero ver logo como está a Mamãe! Um alívio por vê-la ali. E uma força nem sei de onde vem. Todo meu nervosismo vai embora. Alguém ali precisa estar calmo. Alguém além do médico, claro.

– E a Claudinha? – pergunta a Mamãe.

– Hein? – respondo eu, fazendo cara de “hein”.

Os médicos estão conversando. Perguntam se levei a Mamãe para comer churrasco no porto de Montevideo. Falei que ainda não fomos para lá. Tem uma música de fundo. Sempre tem música no centro cirúrgico. Não lembro o que estava tocando.

– Camada dois – diz o médico.

– São sete camadas de pele – diz o outro médico.

Bip. Bip. Bip. É o coração da Mamãe batendo.

Barulho de sugador. Mamãe olha assustada pra mim, e respondo:

– É o sugador! Ainda não nasceu!

Bip bip. Bip bip. Bip bip. Coração acelerado.

– Tá chegando – diz o médico – É cabeludo!

Ele solta os instrumentos e começa a usar a mão.

– Chegou? – pergunta aflita Mamãe.

– Ainda não – respondo.

– Um… – diz o médico.

Ele continua usando as mãos.

– Dois…

Só vejo os braços de branco se movendo.

– Três! Biscoito chegou!

Ouvimos choro pela sala. Da Mamãe. Meu. Do Biscoito.

Nasceu uma família.

 


Puerpério


Este é um assuntos bem espinhoso. Em linhas gerais, o puerpério é o período após o parto em que o organismo da mulher vai voltando ao estado pré-gravidez. “Engraçado” que em vários lugares se lê ao estado normal. Oras, uma mulher engravidar não é algo normal?

Nesse período o corpo expele tudo que “sobrou” do parto, o útero retorna ao seu tamanho original, o local onde a placenta estava colada cicatriza e os hormônios vão voltando ao que eram. Após esse período de cerca de 30 a 40 dias (por isso a tal da quarentena em que atividades físicas são desaconselhadas) a mulher já estaria fisicamente pronta para engravidar novamente. Porém ainda pode não haver ovulação, devido ao aleitamento.

Mas além dessas alterações no corpo, há alterações psicológicas ainda maiores! Durante alguns meses a mulher viu seu corpo se alterar lentamente, com o ventre crescendo, a bacia se expandindo, os seios se preparando para produzir leite, os hormônios mudando, mas tudo de forma lenta e gradual. Já no puerpério tudo muda de uma vez só!

De uma hora pra outra a mulher tem seu corpo alterado. E junto a isso ainda tem um bebê que precisa de muitos cuidados. Por mais presente que seja o pai, infelizmente a maioria não consegue ficar alguns meses de licença para ficar mais tempo com a mulher e com o bebê, não tem como dar de mamar, e, sendo honesto, continua sendo homem! Homem no sentido de que muitas vezes não percebe a necessidade da mulher, não percebe que ela precisa de um carinho num momento, de paz em outro, de tranquilidade sempre.

As alterações são tão sérias e fortes que é nesse momento que surge a depressão pós-parto, que não é frescura.

É um momento que pode ser muito complicado para a mulher, no qual o maior auxílio que o companheiro pode dar é compreender, não julgar, e ajudar em tudo que puder. Não é momento de discussões. É uma hora em que toda a atenção tem que estar voltada para a mãe e para o bebê. Só que sem exageros! Nenhum deles está doente e não devem ser colocados numa redoma.

A Mamãe passou por isso, com momentos de muita tristeza, choros que apareciam do nada, e momentos de euforia também. Uma descrição desse momento que ela deu, que considerou a mais próxima da verdade, foi de morte. Mas não no sentido mais literal da palavra, de final da vida. Foi a morte de uma mulher para o nascimento de uma mãe.

Como pai e marido eu fiquei meio perdido, sem saber o que fazer. É complicado ver a mulher que se ama chorando, às vezes com motivo e às vezes sem, e não poder fazer nada efetivo para evitar. E para ajudar ainda mais no processo, Mamãe não estava produzindo leite suficiente para o Biscoito (espero que ninguém venha dizer que não existe isso de não ter leite suficiente, pois nós passamos por isso, e acontece sim!). Foi receitado inclusive um remédio para estimular a produção de leite, coincidentemente um antidepressivo. Difícil saber se o remédio ajudou a segurar a barra da Mamãe nos momentos mais críticos, mas provavelmente os médicos o receitam com dupla intenção.

Certamente a depressão pela qual a Mamãe passou não foi apenas por causa dos hormônios, mas pela situação toda! Privação de sono (acordar a cada 2 horas para dar de mamar não permite um bom descanso), nervosismo por não saber o que fazer quando o bebê chora, ficar em casa sem poder sair, receber muitas visitas (ainda pior no caso da Mamãe que adora receber pessoas em casa, e tendo que cuidar do Biscoito acaba se sobrecarregando mais ainda), preocupação em permitir que eu durma para poder ir trabalhar descansado no dia seguinte….uma série de coisas que somadas permitem dizer sem sombra de dúvidas que a Mamãe é uma mulher extremamente forte! Mas que como todo humano, tem seus momentos de fraqueza, e eu tenho que estar ali para segurá-la e reerguê-la quando necessário.

Esse período mais crítico já passou para nós. Mas os cuidados com a Mamãe, esse tem que continuar! Pela vida toda!


Peito, copo ou mamadeira?


Enquanto estava grávida, Mamãe me perguntou por várias vezes o que eu acharia dela se ela não conseguisse amamentar, por qualquer que fosse o motivo. Poderia ser porque ela não gostasse (acontece da mulher não se sentir confortável ou mesmo criar ojeriza à amamentação), porque o Biscoito não iria querer mamar ou porque simplesmente poderia acontecer de não ter leite.

Sempre respondia que jamais acharia ela menos ou mais mãe por dar de mamar. Se por algum motivo, qualquer um, não fosse possível dar de mamar haveria alternativas, e jamais a julgaria por isso. Nem permitiria que alguém a julgasse.

O Biscoito saiu da maternidade mamando no peito. Mas não sabíamos quanto efetivamente ele mamava! O seio não é transparente para ver (aqui houve uma falha no projeto dos mamíferos, ou talvez não: quem sabe o bebê não conseguisse mamar se visse tudo que tem dentro do seio…). E ele não estava mamando o suficiente. Começou a emagrecer. E isso para um recém-nascido é perigo de morte.

Mamãe tentava a todo custo dar o peito, chegando a ficar com um dos seios tão machucado que bastava o Biscoito pegar para ela se contorcer e chorar de dor. Tenho certeza que ela não urrava de dor apenas para não assustar o Biscoito. Cada vez que ela ia dar esse peito eu segurava sua mão e colocava sua cabeça no meu ombro, para que ela pudesse apertar e gritar abafado.

Aí tivemos a consulta com o Dr. Atra, que mandou entrar com fórmula imediatamente. Foi quando eu disse à Mamãe para dar um descanso para aquele seio, para que ele se recuperasse e déssemos chance para o leite voltar.

É incrível a quantidade de pessoas que dizem “você está dando fórmula? Que horror”! Mas não entendem que para os pais isso é o último recurso. Para uma mãe então é quase o fim do mundo! Nem imagino o sofrimento que deve ser para uma mãe não conseguir alimentar o filho, mas vi o sofrimento que é tentar e não ser suficiente.

As pessoas dizem para continuar tentando dar o peito, que o leite uma hora vai sair. Só que não sabemos quanto tempo vai levar para o leite sair (se algum dia efetivamente sair!), e quando isso acontecer pode ser tarde demais para o bebê. Entre insistir em algo que não está dando certo e correr o risco de matar seu filho, e partir para a fórmula, não acho que exista escolha.

Partimos então para a fórmula, inicialmente no copinho, para evitar que o Biscoito se acostumasse à mamadeira e deixasse de mamar no seio. Mas no copinho além de demorar muito e desgastar o bebê (imagine você com muita sede e tomando água com conta-gotas), muito do leite era desperdiçado pois ia pra todo lugar, menos pra boca. Então decidimos partir para a mamadeira.

Já tínhamos comprado um conjunto de mamadeiras da Avent, para usar mais pra frente, e tentamos elas. Tinha visto que no bico delas havia um número 2, mas não me liguei muito no que isso significava. O Biscoito estava tomando, mas não estava indo muito bem. Era muito rápido e isso fazia com que ele tomasse muito, regurgitasse um tanto, e entrasse muito ar junto provocando desconfortos nele. Compramos uma mamadeira para recém-nascido. E no bico havia um número 1. Estávamos usando mamadeira errada. Ele se adaptou muito bem com a nova! E como ele precisa fazer um esforço maior para mamar, continua mamando no peito também, apesar de não ter muito leite.

Mas pouco leite materno é melhor que nenhum! Então ele mama no peito, e depois completamos com a fórmula na mamadeira.

Graças a isso ele está engordando, percebemos que está bem, está feliz.

Em todo lugar você lê que sempre se deve dar o leite materno, que essa deve ser a única fonte de alimentação do recém-nascido, que as mães devem insistir pois sempre vai ter leite, o corpo sempre vai produzir. Pois é….a vida real é diferente, e ninguém prepara a mãe e o pai para o que pode dar errado.


Dia 0 – o nascimento


Chegou o grande dia, e quem disse que estava tudo pronto? Sempre falta algo, se esquece de algo…eu quase esqueci os óculos.

A chegada à maternidade foi tranquila, mas o processo de internação, esse sim deu trabalho. Era para a Mamãe subir ao quarto antes de ir para o centro cirúrgico, mas atrasaram tudo e ela foi direto.

Enquanto ela estava na triagem eu fiquei recebendo os familiares que veriam o parto pela “janela”. Não parava de chegar gente, e eu nem sabia o que fazer de tão nervoso que estava. Parecia uma barata tonta.

Mas o coração disparou mesmo quando ligaram no quarto para que eu descesse com a primeira troca de roupa do Biscoito e um documento meu. Já iria me trocar para acompanhar a Mamãe no centro cirúrgico.

Fiquei esperando me chamarem para subir à sala de cirurgia. Esses foram os minutos mais longos de minha vida até hoje. Aguardar um telefone dizendo “pode subir”.

Na sala de cirurgia eu apenas tentava acalmar a Mamãe, mas acho que sem muito sucesso. Se eu não sabia o que fazer, imagine ela deitada na maca, anestesiada sem poder se mexer.

Mas só há uma emoção comparável àquela sentida quando o médico diz “o Biscoito está chegando” e você vê a cabeça cheia de cabelos dele saindo do ventre de sua amada: quando escuta pela primeira vez as batidas do coração dele no ultrassom.

Acompanhar os primeiros minutos de vida do seu filho de tão perto, mas ainda não poder segurá-lo é ao mesmo tempo mágico e angustiante! Só depois de pesado, medido, pezinhos sujos (e depois limpos), pulseiras conferidas e colocadas, enrolado e com capuz é que posso tê-lo em meus braços. Admirá-lo de perto. Sentir seu cheiro. E levá-lo para conhecer o rosto da Mamãe…e a Mamãe conhecer o rosto dele.

Se passam longuíssimas uma hora e meia até que Mamãe e Biscoito chegam no quarto. O primeiro momento da nova família sozinha e junta. O primeiro momento em que você olha para aquela pequena pessoa e promete para si mesmo: nunca faltará nada pra você! Nunca te deixarei desamparado! Sempre vou te amar!