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Voa, passarinho!


Uma nova fase da vida do Tomás começou. Uma fase em que ele vai descobrir muitas coisas novas. Ele vai descobrir que pode viver sem o Papai e sem a Mamãe. Mas vai descobrir que sempre estaremos aqui esperando ele voltar. Ou sempre estaremos ali estendendo as mãos para ele.

Descobrirá com mais força o que é uma amizade. E o que é saudades. E provavelmente também descobrirá o que é inveja. Ciúmes ele já sabe o que é, mas de forma diferente, em relação ao Gael. É ele quem tem o sentimento, mas agora talvez ele seja o alvo.

Vai descobrir que a vida é muito mais que a casa em que ele mora e os lugares onde o levamos para passear. Vai descobrir que existe um mundo inteiro ali fora para ser explorado. E vai saber que sempre estaremos esperando ele voltar. Às vezes com o coração apertado de saudades, outras de preocupação. Mas sempre com os braços abertos para recebê-lo e acalentá-lo.

Espero que nesta nova fase que se inicia ele não perca tão cedo a inocência, que continue com o sorriso gostoso, a gargalhada contagiante, o olhar doce, continue fazendo o barulho do avião, brincando com o trem, imitando o dinassauro.

Que nesta nova fase ele aprenda, cresça, se desenvolva. E continue sendo uma criança.

E que volte para casa empolgado, contando com todos os detalhes o que viu, aprendeu, sentiu. Sempre estaremos aqui.

Boas aulas, meu pequeno!


Quando a família cresce


Hora de contar como fiquei sabendo da vinda do Gael, e também de criar vergonha na cara e voltar a escrever por aqui. Principalmente porque daqui a alguns anos, quando eles descobrirem este espaço, e morrerem de vergonha, certamente ouvirei “por que só tem coisas dele?”, “não gosta de mim?”, “só por que não sou novidade?”, e por aí vai! 🙂

Nós pensávamos em ter um segundo filho, depois que estivéssemos bem estruturados e com o Tom na escolinha, principalmente. Por isso inclusive que a Mamãe tomava anticoncepcional. Assim que ela se sentiu pronta, resolveu voltar para o mercado de trabalho, até porque viviam atrás dela para retornar à empresa da qual tinha saído.

Então resolvemos procurar uma escolinha para o Tom e ela voltar ao batente. Para isso precisava fazer alguns exames médicos, ainda mais porque haviam vários atrasados que o ginecologista havia pedido há meses. Então lá foi ela fazer. Como eram exames de rotina, acabei não indo junto.

Ao final do dia, quando foi me buscar no trabalho, pediu para descermos até a garagem esperar um pouco porque não estava se sentindo muito bem. Ok, sem problemas. Depois de alguns minutos ela começa a chorar, e eu fiquei assustado pois devia ter alguma coisa nos exames que a preocupou. Ela disse que tinha. E disse “adivinha o que tem”, e eu desesperado “fala logo”! “Não adivinha?”…e comecei a rir, pois na hora me deu um estalo.

início do flashback

Antes de sabermos da gravidez do Tom, houve um dia em que fomos ao shopping, e a Mamãe ficou alucinada por sorvete. Comeu tanto que até passou mal. Alguns dias antes desses exames fomos ao interior visitar Dona Sogra, e num passeio no shopping ela quis sorvete de novo. Na hora fiquei com a pulga atrás da orelha, mas como estava com anticoncepcional, achei que era só coincidência e acabei nem comentando nada.

Detalhe: ela não gosta de sorvete.

fim do flashback

Ela confirmou que estava grávida. E aí me contou como foi na clínica.

Chegou para fazer o ultrassom, preencheu toda a papelada inclusive dizendo que não estava grávida (porque a princípio não estava mesmo), e foi pra sala do exame. Após um tempinho do início do exame, em que o médico nada falou e ficava mexendo pra lá, mexendo pra cá, a enfermeira que acompanhava perguntou ao médico se não era melhor ir para outra máquina, pois essa estava com problemas.

Aí a Mamãe já ficou preocupada, e foi pra outra sala. Lá a enfermeira pegou na mão dela, e esse foi o sinal para o início do desespero. Quando ela já estava chorando perguntando o que estava acontecendo, o médico disse que estava tudo bem, não haviam encontrado nenhum problema, não havia nada….só um saco gestacional.

Segundo a Mamãe, nesse momento ela desmaiou. Acho que há um pouco de dramatização aí, mas com certeza a pressão dela deve ter despencado!

Aí veio outra enfermeira com água, medidor de pressão, cadeira de rodas, já estavam quase chamando o SAMU. Ela foi para a área de espera, onde a Tia Pi estava esperando com o Tom, e como chegou lá amparada pela enfermeira, a Tia Pi já ficou desesperada, gritando “o que aconteceu? O que fizeram com ela?“, e aí explicaram.

Como encontraram apenas o saco gestacional, com uma idade aproximada de 2 semanas, não era possível afirmar categoricamente que estava grávida, então sugeriram comprar um teste de farmácia. No caminho entre a clínica e o meu trabalho, a Mamãe parou em todas e comprou testes de gravidez. Todos positivos.

Teríamos que fazer um novo exame 15 dias depois para confirmar a gravidez. Foram os 15 dias mais demorados de nossas vidas, pois não queríamos contar a ninguém para não alimentar falsas esperanças, mas também estava difícil segurar a novidade.

Após o novo exame, tudo confirmado: havia um feto com o coração já batendo firme e forte! Decidimos que contaríamos apenas com 3 meses de gestação, para passar a fase inicial complicada.

E com isso a volta ao trabalho da Mamãe foi adiada em mais um ano, pelo menos.


Crônica do Nascimento


Recebo tio, tia, avó, primo, sobrinho. Corredor cheio. Barulho dentro e fora do quarto. Pobres famílias que estão nos outros apartamentos tentando dormir. Daqui a pouco aparece um segurança mandando todo mundo entrar no quarto, penso.

Onde coloca essa mala? E essa caixa? Cabe no armário? Cadê a Mamãe que não subiu ainda?

Santa ajuda da prima para organizar as coisas no quarto.

Vou até a enfermagem perguntar se vai demorar muito pra Mamãe subir. Está marcado para as 20:00. Já são 19:40. A enfermeira olha o relógio e diz:

– Ainda tem tempo. Vai subir sim.

Volto pro quarto. Metade da família dentro conversando, metade fora, no corredor, conversando.

Toca o telefone.

– Acompanhante da Sra. Mamãe?

– Sim, sou eu!

– O senhor deve descer na triagem com um documento seu, a autorização para entrar no centro cirúrgico e a primeira muda de roupa do bebê.

O coração dispara, e ela continua:

– A sua esposa já trocou de roupa e o senhor deve pegar as roupas que ela estava vestindo. Ela já vai subir para o centro cirúrgico.

O coração já saiu correndo do hospital.

Falo pra todo mundo que ela vai direto pro centro cirúrgico, então todos devem subir ao 5o. andar para assistir o parto. Eu vou descer pegar as roupas dela. O que é que eu tinha que levar mesmo?

Encontro Mamãe sentada, com cara assustada, já trocada para a cirurgia. Provavelmente ela deve ter visto minha cara de pânico também!

Acompanhei ela até o 4o. andar, onde eu desceria para deixar as coisas dela no quarto e me trocar. Ela seguiu pro 5o., onde cruzou com toda a família no corredor. Abraços de mãe, avô, afilhada. Aplausos. E choro! Muito choro! Depois vi pelas fotos e soube pelos relatos que foi emocionante. Mas não pude estar com ela, segurando sua mão.

Entrei na área reservada, onde médicos, enfermeiros, assistentes e acompanhantes se trocam. Tiram toda a sua roupa e colocam a do hospital. Uma calça e uma blusa. E protetores no sapato. O sapato fica. Talvez para evitar mal cheiro, quem sabe. E uma touca. Meu documento é trocado por uma chave de armário. A guardiã das chaves diz que muita gente saía do centro cirúrgico e esquecia de deixá-la de volta, indo embora com ela.

Sento no banco aguardando ser chamado. Tem um outro pai ao lado. Como homens, trocamos meia dúzia de palavras. Imagino que se fossem duas mulheres teriam saído dali com zapzap uma da outra e já teriam combinado de tomar um café depois do nascimento. Talvez tenham se passado 10 minutos. Ou 20. Ou 30. Não sei.

A enfermeira entrega uma máscara e ensina a colocar. Amarra no pescoço e deixa a parte de cima solta. Na hora de entrar na sala de cirurgia amarra atrás da orelha. É que essa máscara esquenta ao se respirar.

Mais 10 minutos. 20. 30. Uma hora?

Toca o telefone da enfermeira.

– Acompanhante de Joana (nome fictício, imagina se vou lembrar o nome da outra mãe). Pode subir, sala 4 – diz a enfermeira.

– Boa sorte e bom nascimento – digo para o pai.

– Obrigado, bom nascimento para você também – responde ele.

Nenhum de nós dois sabia que o termo correto para esse momento é “boa hora“. Assim como para um ator que vai entrar em cena é “quebre a perna”. Por que “boa hora” é uma boa pergunta! Mas com certeza melhor que “quebre a perna”.

10 minutos. 20. 30. Três horas?

Chega para se trocar uma moça que vai acompanhar um parto. Ela estava branca. Penso que deve ter sido pega de surpresa. Se tivesse 20 anos era muito. Sinto um pouco de pena pelo pai da criança não estar lá. Mas talvez não estar lá seja algo bom. Vai saber.

A enfermeira ensina o ritual da máscara para ela.

10 minutos. 20. Uma eternidade!

Toca o telefone.

– Acompanhante de Mamãe, pode subir. Sala 5.

Sinto uma descarga de adrenalina. Batimentos a 300. Nossa, o coração voltou! Que bom!

Na mão está a troca do Biscoito e a autorização para entrar no centro cirúrgico. Tento colocar a máscara com uma mão só. Deve realmente ser a adrenalina. Óbvio que não consigo. Chego no andar e entrego a autorização. Paro na porta da sala de cirurgia, coloco a troca no meio das pernas e uso as duas mãos para colocar a máscara.

Devo esperar alguém abrir a porta ou já entro? Vou entrar. No pior dos casos me mandam sair e esperar.

Entrego a troca de roupas para uma médica…enfermeira….assistente….pediatra….sei lá, para alguém! E me dizem para sentar num banquinho na cabeceira da maca, ao lado da Mamãe. Dou a volta na maca e nem vejo o que os médicos estão fazendo. Quero ver logo como está a Mamãe! Um alívio por vê-la ali. E uma força nem sei de onde vem. Todo meu nervosismo vai embora. Alguém ali precisa estar calmo. Alguém além do médico, claro.

– E a Claudinha? – pergunta a Mamãe.

– Hein? – respondo eu, fazendo cara de “hein”.

Os médicos estão conversando. Perguntam se levei a Mamãe para comer churrasco no porto de Montevideo. Falei que ainda não fomos para lá. Tem uma música de fundo. Sempre tem música no centro cirúrgico. Não lembro o que estava tocando.

– Camada dois – diz o médico.

– São sete camadas de pele – diz o outro médico.

Bip. Bip. Bip. É o coração da Mamãe batendo.

Barulho de sugador. Mamãe olha assustada pra mim, e respondo:

– É o sugador! Ainda não nasceu!

Bip bip. Bip bip. Bip bip. Coração acelerado.

– Tá chegando – diz o médico – É cabeludo!

Ele solta os instrumentos e começa a usar a mão.

– Chegou? – pergunta aflita Mamãe.

– Ainda não – respondo.

– Um… – diz o médico.

Ele continua usando as mãos.

– Dois…

Só vejo os braços de branco se movendo.

– Três! Biscoito chegou!

Ouvimos choro pela sala. Da Mamãe. Meu. Do Biscoito.

Nasceu uma família.