Crônica do Nascimento


Recebo tio, tia, avó, primo, sobrinho. Corredor cheio. Barulho dentro e fora do quarto. Pobres famílias que estão nos outros apartamentos tentando dormir. Daqui a pouco aparece um segurança mandando todo mundo entrar no quarto, penso.

Onde coloca essa mala? E essa caixa? Cabe no armário? Cadê a Mamãe que não subiu ainda?

Santa ajuda da prima para organizar as coisas no quarto.

Vou até a enfermagem perguntar se vai demorar muito pra Mamãe subir. Está marcado para as 20:00. Já são 19:40. A enfermeira olha o relógio e diz:

– Ainda tem tempo. Vai subir sim.

Volto pro quarto. Metade da família dentro conversando, metade fora, no corredor, conversando.

Toca o telefone.

– Acompanhante da Sra. Mamãe?

– Sim, sou eu!

– O senhor deve descer na triagem com um documento seu, a autorização para entrar no centro cirúrgico e a primeira muda de roupa do bebê.

O coração dispara, e ela continua:

– A sua esposa já trocou de roupa e o senhor deve pegar as roupas que ela estava vestindo. Ela já vai subir para o centro cirúrgico.

O coração já saiu correndo do hospital.

Falo pra todo mundo que ela vai direto pro centro cirúrgico, então todos devem subir ao 5o. andar para assistir o parto. Eu vou descer pegar as roupas dela. O que é que eu tinha que levar mesmo?

Encontro Mamãe sentada, com cara assustada, já trocada para a cirurgia. Provavelmente ela deve ter visto minha cara de pânico também!

Acompanhei ela até o 4o. andar, onde eu desceria para deixar as coisas dela no quarto e me trocar. Ela seguiu pro 5o., onde cruzou com toda a família no corredor. Abraços de mãe, avô, afilhada. Aplausos. E choro! Muito choro! Depois vi pelas fotos e soube pelos relatos que foi emocionante. Mas não pude estar com ela, segurando sua mão.

Entrei na área reservada, onde médicos, enfermeiros, assistentes e acompanhantes se trocam. Tiram toda a sua roupa e colocam a do hospital. Uma calça e uma blusa. E protetores no sapato. O sapato fica. Talvez para evitar mal cheiro, quem sabe. E uma touca. Meu documento é trocado por uma chave de armário. A guardiã das chaves diz que muita gente saía do centro cirúrgico e esquecia de deixá-la de volta, indo embora com ela.

Sento no banco aguardando ser chamado. Tem um outro pai ao lado. Como homens, trocamos meia dúzia de palavras. Imagino que se fossem duas mulheres teriam saído dali com zapzap uma da outra e já teriam combinado de tomar um café depois do nascimento. Talvez tenham se passado 10 minutos. Ou 20. Ou 30. Não sei.

A enfermeira entrega uma máscara e ensina a colocar. Amarra no pescoço e deixa a parte de cima solta. Na hora de entrar na sala de cirurgia amarra atrás da orelha. É que essa máscara esquenta ao se respirar.

Mais 10 minutos. 20. 30. Uma hora?

Toca o telefone da enfermeira.

– Acompanhante de Joana (nome fictício, imagina se vou lembrar o nome da outra mãe). Pode subir, sala 4 – diz a enfermeira.

– Boa sorte e bom nascimento – digo para o pai.

– Obrigado, bom nascimento para você também – responde ele.

Nenhum de nós dois sabia que o termo correto para esse momento é “boa hora“. Assim como para um ator que vai entrar em cena é “quebre a perna”. Por que “boa hora” é uma boa pergunta! Mas com certeza melhor que “quebre a perna”.

10 minutos. 20. 30. Três horas?

Chega para se trocar uma moça que vai acompanhar um parto. Ela estava branca. Penso que deve ter sido pega de surpresa. Se tivesse 20 anos era muito. Sinto um pouco de pena pelo pai da criança não estar lá. Mas talvez não estar lá seja algo bom. Vai saber.

A enfermeira ensina o ritual da máscara para ela.

10 minutos. 20. Uma eternidade!

Toca o telefone.

– Acompanhante de Mamãe, pode subir. Sala 5.

Sinto uma descarga de adrenalina. Batimentos a 300. Nossa, o coração voltou! Que bom!

Na mão está a troca do Biscoito e a autorização para entrar no centro cirúrgico. Tento colocar a máscara com uma mão só. Deve realmente ser a adrenalina. Óbvio que não consigo. Chego no andar e entrego a autorização. Paro na porta da sala de cirurgia, coloco a troca no meio das pernas e uso as duas mãos para colocar a máscara.

Devo esperar alguém abrir a porta ou já entro? Vou entrar. No pior dos casos me mandam sair e esperar.

Entrego a troca de roupas para uma médica…enfermeira….assistente….pediatra….sei lá, para alguém! E me dizem para sentar num banquinho na cabeceira da maca, ao lado da Mamãe. Dou a volta na maca e nem vejo o que os médicos estão fazendo. Quero ver logo como está a Mamãe! Um alívio por vê-la ali. E uma força nem sei de onde vem. Todo meu nervosismo vai embora. Alguém ali precisa estar calmo. Alguém além do médico, claro.

– E a Claudinha? – pergunta a Mamãe.

– Hein? – respondo eu, fazendo cara de “hein”.

Os médicos estão conversando. Perguntam se levei a Mamãe para comer churrasco no porto de Montevideo. Falei que ainda não fomos para lá. Tem uma música de fundo. Sempre tem música no centro cirúrgico. Não lembro o que estava tocando.

– Camada dois – diz o médico.

– São sete camadas de pele – diz o outro médico.

Bip. Bip. Bip. É o coração da Mamãe batendo.

Barulho de sugador. Mamãe olha assustada pra mim, e respondo:

– É o sugador! Ainda não nasceu!

Bip bip. Bip bip. Bip bip. Coração acelerado.

– Tá chegando – diz o médico – É cabeludo!

Ele solta os instrumentos e começa a usar a mão.

– Chegou? – pergunta aflita Mamãe.

– Ainda não – respondo.

– Um… – diz o médico.

Ele continua usando as mãos.

– Dois…

Só vejo os braços de branco se movendo.

– Três! Biscoito chegou!

Ouvimos choro pela sala. Da Mamãe. Meu. Do Biscoito.

Nasceu uma família.